O tabu da amamentação

Quando você está com uma criança no colo, as pessoas automaticamente perguntam: “Tá dando muito peito?”

Antes mesmo daquele “oi, tudo bem? Precisa de algo?”. E isso não surge apenas de pessoas próximas, mas de qualquer um que te vê caminhando na rua.

Algo natural tendo em vista a história das mulheres de antigamente e a influência (muito positiva da livre demanda), mas na cabeça da mãe tudo se potencializa.

A verdade é que eu não sei qual seria a minha reação caso a resposta fosse sim. Aliás, penso que seria como fogos de artifício na virada do ano.

O motivo dessa comparação? A minha resposta diária é: “ele não mama no peito”. Uma frase seca para aqueles que ouvem, mas muito dolorida para quem fala.

Nessa resposta, me senti a mulher mais triste do mundo. Principalmente porque em algumas ocasiões a conversa não para na minha resposta negativa. Ela continua no olhar do outro que pensa “coitada, ela não conseguiu” ou pior, naquele comentário que diz “sorte a sua porque acabou com meu peito, eu jamais faria isso de novo”.

Na minha cabeça cada um sabe o que faz. E é provável que as minhas vontades não sejam iguais a sua e tudo bem se for assim.

Todavia, precisamos entender que julgar uma mãe dói. E por mais bem resolvida que você seja, ele entra rasgando numa mente que já se sente culpada o suficiente.

Assim como o parto normal, amamentar era algo que eu queria muito. No entanto, eu passei por uma redução de mama que prejudicou a decida de leite.

Como eu estudei muito durante a gestação, eu sabia que as chances não seriam muito grandes. No entanto, a esperança estava ali.

Tanto que fiz de tudo. Mudei toda a minha alimentação, fiz acompanhamento com uma enfermeira especializada, corri para a relactação por sonda e tentei livre demanda até o peito ficar em carne viva.

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Mas não rolou.

Com isso me senti a pior mãe do mundo. Passei noites inteiras em claro me questionando, chorei no chuveiro para ninguém escutar, me culpei por cada grama que ele não ganhava.

Não precisava de olhares de pena ou qualquer comentário. Eu era a minha maior inimiga. Isso sem contar a vergonha que era gigantesca.

Porém eu precisava virar a página. Ali nos meus braços estava uma criança que precisava de peso e cuidados.

Então, conforme a instrução da pediatra passei a dar fórmula na mamadeira. Eu não estava feliz, mas sentia um alívio por ver meu filho sem fome.

Aos poucos e com muitas conversas com amigas que são mães fui tentando transformar a frustração e fazer das mamadas do Benjamin, um momento de grande vínculo entre nós.

Ainda assim, a vergonha era imensa. Uma coisa é dar mama em casa, só nossa família . Outra bem diferente era expor esse “defeitinho”.

Todas as vezes que saíamos de casa eu organizava as mamadas para não correr o risco dele querer mamar na rua.

Essa loucura só começou a passar quando eu conversava com outra mãe que havia passado por isso ou via aquele desfile de mamadeiras no consultório da pediatra.

Mas eu ainda precisava de um empurrão para me ver livre dessa culpa. E não bastava ver que o Benjamin estava crescendo forte e saudável.

A verdade é que o ruído da minha mente só parou quando, por um descuido na minha “organização alimentar”, tive que dar mama em público.

Foi a mamada mais longa e libertadora. Ali entendi de fato o que está por trás da frase ‘maternidade real’.

No fim das contas eu entendi que não sou mais ou menos mãe pela forma que alimento meu filho. Mas, sim por todo o resto que envolve o maternar.

Hoje sei que não é fácil para nenhuma mãe, esteja ela amamentando ou não. A verdade é uma só: cada relação (mãe, filho e adaptação) é única.

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